Exposição

A terceira margem de um lugar, que foi lugar, que secou que diluiu que reergueu que  afogou.
A terceira margem que insistentemente re-volta e não deixa de ser paisagem, que desaparece, e que recobra.
A terceira margem que não se delimita, ultrapassa muda de nível, reaparece.
Do leito que era praça, palco de uma historia que sedimenta-se ao profundo de Canudos.
Buscar as rotas em composição em camadas em outros lugares em terceiras margens, em paisagens em rotas de (dis)(com)posições.

 

 

 

Há na mostra expográfica uma terceira margem marcada pela ausência do rio. A ausência é o que consome e some o fluxo da existência. Em qual tempo e espaço estaria a terceira margem? No próprio fluxo da memória que personifica ausências. Ausências da mãe, do pai, do filho… dos descendentes. Ausência do rio, da água e do que submerge como ruínas.

Permanece-se Prisioneiro. Prisioneira de nossas próprias indagações.

Busca-se respostas mais do que indagações, contudo  cada uma das obras que compõem  exposição Canudos: a terceira margem são elos de um único enunciado discursivo que deve ser visto como um novo elo de enunciados precedentes. Não sem motivo, além de Euclides e Canudos, revozeia-se em terceira margem, a do rio, (a) de Guimarães Rosa, se o olhar que sobre aquilo se expõe, assim revelar de uma determinada imagem que poderá confirmar, complementar como conhecidas pelo alguém que com essa exposição interage.

O leitor posiciona-se para ler, sentir, olhar Canudos: a terceira margem com a consciência social da ausência física de um lugar, de uma terra que foi submersa, de uma sangrenta guerra que reverbera messianismo e palavras de que lugares santos seriam resgatados, homens e mulheres sublimados, culpa e perdão, remissão e glória.

Outra margem se avoluma, ao correlacionar essas ausências do que foi vivido com o que se construiu acerca dos episódios, por isso nos posicionamos como intérpretes das matrizes artísticas de Silvio Jessé e Vinicius Gil (Purki) nas provocações que desestabilizam o nosso olhar de espectador causando-nos o incômodo capaz de incitar mergulhos em uma outra paisagem, a  da terceira margem, em imersão e  emersão, movimentos das entradas possibilitadoras de interação que a mostra expográfica, convida, suscita e indaga a cada pessoa que a ela se debruça a interpretar.

Em um dia qualquer, com anúncios, mas sem despedida, tudo terra vira água, tudo  sertão  torna-se  mais ainda áridas paisagens, impondo êxodos e novas rotas de (dis) (com) posições aos sujeitos daquele lugar.

Sólido, liquido.

Firmeza, inconsistência.

Solo, água.

Profundeza, margens.

Vastidão …

 

Créditos

Mostra Canudos – A Terceira Margem

Exposição: Silvio Jesse

Expografia: Vinicius Gil (Purki)

Montagem: Edilando Ferraz

 

Texto Curatorial: Ester Figueiredo, Lana Sheila Rocha.

Pesquisa Literária: Clara Carolina Santos.

Curadoria: Ester Figueiredo.