Pesquisa Literária

PESQUISA LITERÁRIA FLIGÊ 2017

Por
Clara Carolina Souza Santos

Sobre o autor

Euclides da Cunha nasceu no Rio de Janeiro em 1866. Fez sua carreira  como escritor, jornalista, professor e poeta. Seu livro de maior destaque, Os Sertões, tornou-se conhecido por seu caráter científico e cultural, privilegiando a veiculação de informações das mais diversas áreas do conhecimento, e ganhou destaque e notoriedade ao longo do século XX no Brasil.

Euclides da Cunha vendeu os direitos definitivos do romance Os Sertões quando deixou o emprego na Companhia de Saneamento de Santos. Naquele momento, Euclides da Cunha realizava a transição de morada do Guarujá para o Rio de Janeiro, em busca de uma colocação no funcionalismo e já era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras.

As cartas de Euclides da Cunha para seus amigos revelam um homem esperançoso, preocupado com as questões da cidade, idealista e voltado para uma ocupação laboral mais regular do que a do artista. Com a publicação do romance Os Sertões, Euclides da Cunha esperava um “lucro de ordem moral: a opinião nacional inteira que, pelos seus melhores filhos, está inteiramente ao meu lado”. Apesar de ter obtido baixos lucros com sua produção romanesca, Euclides da Cunha atingiu a admiração literária dos seus pares e figura,  hoje, entre um dos grandes nomes da Literatura Brasileira.

 

Sobre a primeira edição do livro

De trajetória irregular, não sabemos exatamente quantas edições de Os  Sertões foram impressas em 1904. Essa informação não aparece nas correspondências trocadas entre Euclides da Cunha, seus amigos e parentes. Apesar de escondida pelo tempo e até mesmo pelo autor, sabemos que a primeira edição de Os Sertões teve uma tiragem inicial de surpreendentes 1.200 mil exemplares. O enorme sucesso do livro é atestado pelas edições subsequentes, esgotadas em um ano e seis meses, isto é, de dezembro de 1901 a abril de  1904.

Em comunicação com o pai, Euclides contou que a primeira edição esgotou em dois meses: “Ontem… recebi uma carta de Laemmert declarando-me que é obrigado a apressar a segunda edição, já em andamento, dos Sertões, para atender a pedidos que lhe chegam até de Mato Grosso – e aos quais não pôde satisfazer por estar esgotada a primeira”. Tamanho foi o impacto do registro da Guerra de Canudos que a atenção para o tema permanece vivo ainda hoje. Lido mais em ambientes escolares, é bastante comum encontrarmos leitores aficionados pelos heróis euclidianos, pelas descrições de suas paisagens e por suas frases impactantes, próprias para o gênero jornalístico.

 

Erros e disparates literários em Os Sertões

Rigoroso em suas correções, Euclides observou cada uma das linhas escritas da primeira edição, corrigindo as edições subsequentes. Os equívocos tipográficos das edições iniciais podem ser um indício da escrita ágil requerida pelo frenético ritmo de impressão dos jornais. Talvez por esse excessivo zelo pela linguagem mais erudita, Euclides não referiu a primeira edição de Os Sertões aos amigos da Academia e seus biógrafos pouco esclareceram sobre o assunto.

Apesar do grande rigor na revisão das primeiras edições, o livro não ficou isento dos temíveis erros dos tipógrafos em suas edições posteriores, revelando um terreno fértil para os interessados em observar como o livro circula de mão em mão, na cadeia literária alimentada pelo editor, autor, tipógrafo, impressor e leitor. Em cartas, Euclides reclamou: “Em cada página meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um ponto e vírgula impertinente… Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro”?

 

O autor e o editor: quando uma mão lava a outra

Neste ensejo, à figura de Euclides da Cunha é associada a imagem dos editores Laemmert, cujo labor prometia a obra finalizada em abril de 1902. Em carta de 10 de abril de 1902, Euclides comunicou a um amigo que “meu livro vai muito regularmente. Ainda hoje respondi a carta do Laemmert, sobre o papel a empregar. Tenho revisto algumas provas. Não estará pronto no fim deste, conforme contrato”.

Apavorado com a crítica gramatiqueira que alguns críticos poderiam escrever por alguns descuidos de revisão, Euclides da Cunha corrigiu a nanquim, bico de pena e ponta de canivete vários erros tipográficos em cerca de mil exemplares, somando quase 80 emendas. Será que o preciosismo literário de Euclides da Cunha com uma proposta de linguagem mais rebuscada, erudita e científica travou a publicação do que viria a ser uma das maiores obras da literatura brasileira?

O jogo editorial revela um ambiente muito movimentado. Em viagens feitas ao Rio de Janeiro para revisar provas do livro e entre uma carta e outra trocada com o amigo Escobar, Euclides revelou suas queixas contra os editores Laemmert, provocando-os a liberar logo as páginas de Os Sertões. Fato consumado em outubro de 1902.

 

O dinheiro e Os Sertões: quanto vale um livro?

Assim como hoje, a profissionalização dos autores literários contava com contratos celebrados entre editores e autores. Esse pagamento parcial não pode ser confundido com uma contratação dos serviços gráficos, pois a troca entre o editor Laemmert e o  autor Euclides da Cunha pautou-se em uma contribuição de despesas muito maiores.

Ao custo de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis em moeda da época), o contrato original, firmado na editora de Francisco Alves e firmado em 1909, foi parcialmente pago pelo próprio autor. Pelo contrato, a contribuição de Euclides da Cunha estaria condicionada apenas à primeira edição do livro. As impressões posteriores foram pagas pela editora Laemmert, na figura do editor Francisco Alves.

A contribuição de Euclides da Cunha para a primeira indica que os editores do livro Os Sertões talvez não tenham acreditado com tanta fé no sucesso do romance e não assumiram completamente o risco do empreendimento, solicitando a Euclides da Cunha uma divisão dos encargos da publicação e lucros das vendas.

O contrato indica que Euclides da Cunha ganhou pouco com a primeira impressão  do livro e cedeu os direitos autorais para os editores, inclusos os direitos de tradução, salvo em língua italiana.

Essa espécie de acordo era muito comum no século passado. A ação mais predatória das editoras borbulhava em reclamações nas cartas de Euclides da Cunha contra o editor Francisco  Alves.  Após  a  impressão,  entretanto,  Euclides  da  Cunha  reconheceu  o   gasto elevado com os custos do livro: “Estive no Rio e modifico um pouco o que disse sobre os editores dos Sertões. Pelas contas que vi, as despesas foram, de fato, grandes – de sorte que, dividido o líquido, terei um ou dois contos de réis”. Se atualizarmos os valores ganhos pelo autor pela impressão da primeira edição, chegamos a uma quantia considerável de quase dez mil reais.

 

O sucesso imediato de Os Sertões

Uma vez esgotada a primeira edição e de posse dos direitos autorais, as editoras, não raro, imprimiam cópias mais livres e menos rebuscadas dos romances, ganhando somas altíssimas quando comparadas com as primeiras edições. A isso, Euclides da Cunha asseverou: “Agora é que eu vejo como fui tolo em celebrar o contrato que fiz! Provavelmente terei uma ninharia pela primeira edição, já esgotada”!

Nem mesmos os erros tipográficos “passíveis de férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por aí os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes” barravam a circulação fluida e enérgica do romance, esgotado em impressionantes quatro meses – um sucesso digno de edições de livros mais atuais, como a bem-sucedida série do Harry Potter.

 

Um livro para a História Ler

Em artigo publicado na revista Ilustração Brasileira em 1909, quase sete anos após a publicação da primeira edição do romance, Viriato Corrêa declarou que o romance seria uma fonte para uma história inverossímil. As descrições das rotas das viagens feitas à esmo pelas cidades e vilas do interior de São Paulo e o baixo preço de mercado do livro pouco tempo após sua primeira publicação parecia condenar Os Sertões a um prejuízo do qual ninguém o salvaria.

Se o autor estava descontentes e os homens mais cultos não convalidavam as informações geográficas do romance, quem seria o responsável pela permanência centenária do romance na história da Literatura Brasileira? Ora, o próprio leitor, cujo interesse esgotou lotes da edição em incríveis oito dias após o lançamento.

Comparado em importância literária aos Lusíadas, de Camões, Os Sertões atingiu maturidade centenária e atingiu um lugar de prestígio com uma importante mensagem social da inteligência brasileira. Com vocabulário impecável, Os Sertões acresceu à literatura uma rica onomatologia, toponímia e antroponímia do falar nacional.

 

Sobre o livro

Um aspecto importante e intrínseco ao programa editorial de Os Sertões é seu posicionamento político de traço moderado. Impresso em um contexto político turbulento (o país passava pelo primeiro mandato de um presidente civil e ainda sofria com os reflexos do governo militar virulento de Floriano Peixoto), o romance anunciou suas preocupações com o momento pelo qual o país passava. Dentre as reflexões propostas no romance, era dever dos homens de letras do momento refletir sobre as transformações constitucionais, jurídicas, econômicas, políticas e sociais que se deram no decênio de 1890 no Brasil. Entretanto, o predomínio do gosto pelo “tom técnico” romance legaram a Os Sertões certo ar de “neutralidade” e de engessamento do debate.

Se nos assuntos políticos o romance procurou não criar polêmicas direcionando o debate para as reflexões governamentais puramente, coube à parte da guerra um papel importante no programa editorial.

 

Os Sertões e o Sertão Profundo: duas civilizações concorrentes

Concorrem dois imaginários geográficos no romance Os Sertões. Um deles é a cidade de Canudos, retratada nas páginas do romance. O outro é a publicação e circulação do romance nas cidades grandes, cuja estrutura alçaria o romance ao prestígio e à memória literária nacional.

Fruto de uma investigação etnográfica, o romance Os Sertões retratou a cidade de Canudos entre os anos de 1896 e 1897, quando houve um grande e intenso conflito entre as forças armadas e a grande comunidade que se desenhava nos limites do sertão. O homem que chegou à Canudos com a tarefa de noticiar os relatos de guerra para um periódico sulista era conhecedor do credo cientificista, ou seja, do evolucionismo, determinismo climático e biológico e, de forma mais geral, do positivismo.

Quando Os Sertões foi publicado, alvorecia na cidade de São Paulo uma pluralidade de instituições de ensino e de associações de ideias. As novas construções movimentaram a feição da cidade. A circulação de novas ideias era motivada pela distribuição de livros, penas, papel, tinta e prêmios aos alunos.

O homem que escreveu sobre Antonio Conselheiro carregava em si essas noções de cidade: a novidade, o afrancesamento, a circulação variada de obras em línguas diferentes. Como será que este homem, Euclides da Cunha, observou a cidade de Canudos?

Passagens do romance mostram um sertão cuja terra é desqualificada e cujo desenvolvimento  da  humanidade  rumo  à  civilização  parece  ser  improvável,  quando  não impossível. O sertão, no romance Os Sertões, era um território da barbárie, do indesejado, do distante, símbolo do que não poderia ser concebido como nacional.

 

Antônio Conselheiro

A figura de Antonio Conselheiro é cercada de mistério, pois sua palavra devolvia aos homens a esperança em um mundo mais justo. Profeta, o homem incorporou ideias da tradição judaico-cristã rememoradas pelas classes populares em um imaginário de catástrofes e promessas a se vingarem ao final de cada milênio. Nos Breviários de Antonio Conselheiro, vemos referências à elaboração do Messias como Filho do Homem, o Messias como um rei cavaleiro, as profecias de Ezequiel sobre a construção da Nova Jerusalém, de Isaías sobre as descobertas de Novas Terras.

A pedido da igreja foram expedidos muitos ofícios, pedindo a entrada do  Conselheiro no Hospício de Alienados da Corte. Todos negados. Talvez pela validade dos documentos -oficiais, católicos, subscrito por autoridades – a memória do Conselheiro como um louco alienado reverbera nas histórias atuais.

Antonio Conselheiro peregrinou pelos sertões da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Ceará desde 1889. Essa peregrinação era comum no Nordeste e muitos dos santos católicos não canônicos participam do devocionário nordestino. Dentre os mais conhecidos, além de Antonio Conselheiro, destacamos o Padre Ibiapina, Dom Vital, São Longuinho, Frei Damião, Menina Sem Nome e Padre Cícero. Todos estes peregrinos incorporaram o que conhecemos como movimento milenarista. Estes movimentos diferem em grau de violência, mas possuem em comum a crença de que o rei Dom Sebastião, rei português anterior às épocas joaninas morto em batalha contra os mouros ao norte da África, viria recompensar os puros e castigar os ímpios.

No romance Os Sertões, Euclides da Cunha sinalizou que a alma do sertanejo era, por vezes, agitada: ía da extrema brutalidade ao máximo devotamento. Talvez por suas preleções subversivas, outras imagens depreciativas permaneceram no imaginário do Conselheiro. Por ter permanecido mais tempo na Bahia, existem registros da polícia baiana que indicam as pregações do Conselheiro como um fanatismo perigoso. Preso em 1873, o Conselheiro foi deportado para Quixeramobim, sua terra natal, no Ceará.

Sem crime comprovado, Antonio Conselheiro retorna para a peregrinação pelos sertões, em direção à Bahia. A prisão injusta lhe deu fama de mártir – o que atraiu uma boa sorte de homens livres – jagunços encantados pelas preleções, pela vida de divisão comunitária e pela devoção à Deus.

 

A Guerra

Outros eventos são semelhantes aos descritos na guerra de Canudos. Nos eventos de Rodeador e Pedra Bonita estes dois extremos são descritos. Até 1817, Rodeador era apenas o nome de uma serra ao sul de Pernambuco, quando Silvestre José dos Santos, conhecido como Profeta ou Mestre Quiou se instalou bem próximo a uma pedra. Com o nome de Cidade do Paraíso Terrestre, o lugarejo chegou a contar com mais de duzentos moradores. Os fiéis se organizavam em formação militar e as orações e devoções ditavam os ritmos de suas vidas. Doações e uma agricultura de subsistência alimentavam-os em seu dia a dia. Da grande  pedra, vozes diziam ao profeta que estava chegando o dia do retorno do Rei Dom Sebastião e de seu exército com a única intenção de tornar ricos e imunes os moradores do Rodeador. Quando o rei retornasse, toda Pernambuco seria tomada e os lugares santos seriam  resgatados. O lugar foi atacado pelo governador em 1820, onde uma milícia aprisionou parte dos habitantes, massacrou alguns e incendiou feridos abrigados na capela do Rodeador.

O movimento de Pedra Bonita foi liderado por João Ferreira, cujas profecias bradavam sobre a volta do rei e, para isto, ofereceu o próprio corpo para o sacrifício, tendo sido sacrificado e desmembrado, como nos ensinou O romance da Pedra do Reino.

 

Invenções a partir de Os Sertões

O romance atingiu enorme sucesso e povoa o imaginário simbólico nacional nos mais variados suportes: cordéis, teatro, literaturas – com alcance nacional e internacional. Quais seriam as aberturas do romance capazes de provocar leituras tão diversas?

Vitória da Conquista, maio/junho, 2017