Espetáculo “A prole dos Saturnos” revela um Castro Alves pouco conhecido

“Coloque uma espada sobre meu túmulo, na luta de libertação da humanidade”. Esse foi o grito de Castro Alves no último ato da peça “A prole dos Saturnos”, que foi exibida na penúltima noite da Fligê 2019 (17).  

Um público de diversas idades lotou a Praça dos Garimpeiros ansiosos para assistir à peça da obra inconclusa, do homenageado desta quarta edição. Edvard Passos é o diretor do espetáculo e estava fascinado com a energia de Mucugê. Ele conta que a peça nasceu em uma pequena cidade de Portugal chamada Fafe. “Eu estava comentando que essa cidade de Mucugê tem algo que me lembra Fafe”.

Num ambiente sem muito cenário, a beleza da interpretação de cada ator só requeria um figurino e algumas caixas usadas durante todo o espetáculo. A peça dramática começa em um baile, e em seguida, é direcionada para o velório da condessa. A partir daí a trama se desenrola: remorso, amor, lamentos, morte, mas, apesar de tudo, arrancando muitas risadas de quem assiste. 

Como o diretor afirmara, trabalhar um texto de Castro Alves, é algo de grande responsabilidade. A peça nasceu amparada pela pesquisa que desenvolvia durante o mestrado. “Como eu fiz a encenação no período em que eu estava pesquisando Castro Alves, a peça acabou sendo até um dado inesperado na pesquisa”, comentou.

“Eu estava tentando encontrar formas de mergulhar na obra de Castro Alves, e quando você encena uma peça, você meio que se coloca na cabeça do autor, você refaz os pensamentos dele. A peça acabou sendo uma experimentação prática, muito forte na imersão da pesquisa. E à medida que eu fui fazendo a peça, eu fui descobrindo que eu tinha a chance de revelar um Castro Alves numa outra frente de batalha, porque existe a da abolição, mas ele também já estava trabalhando na frente de batalha da emancipação da mulher”. As palavras de Edvard, explicam o final da peça. Em uma das cenas, o que se revela é que o drama era sobre Eugênia Câmara, atriz que foi companheira de Castro Alves, revelando à Furtado Coelho, empresário que a trouxe para o Brasil, que iria deixar a companhia para casar-se com Castro Alves e atuar nas suas peças. 

A atriz Mariana Borges, foi quem interpretou a condessa e a Eugênia Câmara. Ela que amou a sua experiência na Fligê, encarou com grande responsabilidade o fato de estar apresentando um texto do homenageado. Para ela, que ama crianças, a Feira é “muito importante para que as crianças aprendam a importância dos livros e do grande homem que foi Castro Alves, na luta antirracista e abolicionista”. 

Fascinado com a quantidade de pessoas que viu assim que chegou na Fligê, Leandro Villa, comentou que “é sensacional ver que a cultura tem a capacidade de mover as pessoas”. Ele, que interpretou Castro Alves, desejou que o poeta estivesse vivo para que pudesse assistir ao espetáculo. “Parte da vida de Castro Alves foi empenhada em libertar as pessoas escravizadas, eu, como ator preto, interpretando Castro Alves é uma coisa que me dá muito orgulho”, afirmou. 

A peça ainda contou com a atuação de Geovana Lima, de 12 anos, que fez o papel de Julieta, e de Danilo Cairo, que interpretou o conde e Furtado Coelho. O espetáculo deixou todos emocionados, reafirmando que Castro Alves ainda vive através de suas obras, e relembrando que falar de sua luta é gritar: “Sê livre… És gigante!”. 

Texto: Raquel Lemos | Fotos: Karen Almeida e Vinícius Brito


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