Sussurro é matéria que distrai tempo e esquecimento em novo romance de Noemi Jaffe

Noemi Jaffe, escritora que integrou a 4ª edição da Fligê (2019), acaba de lançar “O que ela sussurra” (Companhia das Letras). Em seu mais novo livro, a autora projeta luz sobre a vida de Nadejda Mandelstam, companheira do célebre poeta russo Osip Mandelstam, que durante 25 anos sussurrou os poemas de seu marido para que não fossem esquecidos, uma vez que foram censurados pela polícia soviética.

A autora concedeu uma entrevista para a Fligê em que fala sobre o livro, suas inspirações, quarentena e literatura, ressaltando a importância da palavra como finalidade, e não apenas meio.

 

O escritor israelense Amós Oz, respondendo à pergunta “de onde vêm as histórias?”, descreve: “Do que é feita a maçã? Água, terra, sol, uma macieira e um pouco de adubo. É feita delas, mas não se parece com elas”. De onde vêm os impulsos, anseios, desejos que te motivam a escrever antes que se manifestem como histórias?

Vivo com vontade permanente de escrever. O tipo de relação que estabeleço com as coisas e as pessoas é de constante espanto, do qual às vezes gostaria até de me livrar, mas não consigo. Praticamente tudo o que vivo e conheço me faz sentir vontade de escrever a respeito, sobretudo porque presto muita atenção às palavras e suas origens e, por isso, fico escutando muitas vezes mais como as pessoas falam do que exatamente o que elas dizem. E as palavras me despertam muita inspiração. Além disso, são as leituras as minhas maiores fontes imaginativas. Quando leio algo muito bom, fico com vontade de imitar, de também escrever a respeito de algum tema e os bons livros suscitam imagens e possibilidades que eu sempre sinto vontade de experimentar.

Não sou, como Amos Oz, uma boa contadora de histórias, embora adore ouvi-las e lê-las. Sou mais interessada pelas palavras, pela linguagem e por reflexões internas de personagens. Sempre tento criar histórias, mas não acho que seja minha especialidade.

 

Memória e identidade parecem ser preocupações frequentes em sua obra, que propõe inclusive resgates históricos. Como a memória se relaciona com sua produção literária e de que forma literatura e memória podem servir como instrumento uma da outra?

Sinto grande interesse pelo tema das inúmeras formas de exílio que sempre houve e continua havendo: os migratórios, os étnicos, de gênero, de ocupação e os pessoais também. Vários dos meus livros tratam desse assunto, senão todos. Faço, refaço e acabo sempre falando disso. E esse tema está necessariamente ligado à memória: tanto a memória individual, como a comunitária, a social e coletiva. Para poder criar personagens cujo eixo é o exílio preciso recorrer a muita pesquisa e, nesses estudos, acabo me familiarizando com os contextos de outros lugares e épocas e tento estabelecer relações entre o passado e o presente. A matéria-prima do escritor é a memória e seus meandros são misteriosos. Ninguém sabe exatamente o que é nem como funciona, mas todos vivemos a partir dela. Literatura é, entre outras coisas, contar histórias e as histórias são o tecido da memória e vice-versa.

 

Em “O que ela sussurra”, você narra (e ficcionaliza) a história de Nadejda Mandelstam, resgatando a história dessa mulher que havia se resignado ao apagamento. Ambas atuam para iluminar histórias que tendiam à dissipação. O que essa história provoca em você? Como foi essa tarefa de resgate e o que ela te ensinou?

Não é exatamente que ela tenha se resignado ao apagamento. Ela renunciou à pintura por opção exclusiva dela mesma. Achou que seria mais importante para ela seguir os caminhos de Osip e, depois da condenação ao exílio interno, não haveria mesmo como ela desenvolver alguma atividade própria. Mas sim, ela abriu mão de algumas coisas em que ela acreditava em nome da carreira do marido, que ela considerava um gênio. Mas era uma mulher atuante, esclarecida e, em muitas ocasiões, discordou veementemente de Osip. Agora, depois da morte do marido, ela e inúmeras outras mulheres, com seus gestos de dedicação, colaboraram para manter a arte e a cultura que a União Soviética teria preferido apagar. Isso me emocionou demais, desde que soube do fato, não só pelo amor aí representado, mas pela beleza do sussurro, pela duração (25 anos), pelos laços que esse gesto foi criando por onde ela passava e pela possibilidade de fazer algo perdurar. E, além disso, os dois livros que ela escreveu contando essa história me mostraram uma mulher extremamente inteligente, politizada, com opiniões fortíssimas (de muitas das quais eu discordo) e, surpreendentemente, muito religiosa também. Tudo isso me encantou e me ensinou sobre história, política, poesia e, acima de tudo, sobre pessoas e sua complexidade.

Ficção e documento, imaginação e realidade se confundem em sua escrita. O que te atrai nessa confluência?

Gosto muito da confusão entre realidade e ficção e gosto também de confundir meus leitores, como fiz, principalmente, no livro “Não está mais aqui quem falou”. Mas em “O que ela sussurra”, ficcionalizei uma vida verdadeira e me dei a liberdade de colocar a Nadejda para falar em primeira pessoa sobre si mesma, da forma como eu imagino que ela falaria. Acho que os limites entre as coisas não são e nem devem ser rígidos e gosto da realidade sempre muito envolta na ficção. Sonho acordada, invento verdades e, além disso, eu, como todo mundo no Brasil atual, estamos testemunhando o quanto a realidade está mais parecida com um filme absurdo de terror.

 

Muito tem se falado da presença que a literatura assume nesse momento em que estamos em quarentena. Como você vê essa relação? Acha que a literatura pode servir como um amparo? Agregando de que forma?

Acho que a literatura sempre tem importância, em qualquer momento da vida. Nesse momento especial, de estranhamento, de não entendimento de quase nada, de medo e insegurança, a leitura, especialmente, pode ser uma companhia, um escape, uma possibilidade de reconhecimento, de consolo, de alegria e de reflexão. Viver outras vidas, imaginar outros mundos, possíveis e impossíveis, nos lança para lugares mais amplos, em que a consciência não precisa estar confinada como o corpo.

E para você pessoalmente, quais são os impactos que esse momento peculiar provoca em seu imaginário de escritora?

Tenho trabalhado muito, dando aulas e em casa, além de vários pequenos pedidos de lives que estão surgindo. Não tenho quase tido tempo de escrever, mas tenho me divertido muito escrevendo um diário de quarentena, que posto no facebook e no instagram e que as pessoas têm gostado, parece.

 

O tema da quinta edição da Fligê é “Literatura e Ancestralidades”. A sua literatura parece se enriquecer na ancestralidade, inclusive se nutrindo em sua história pessoal. A ancestralidade se reflete na literatura que você produz? De que forma?

Puxa vida, ancestralidade. É uma palavra muito grande, num passado muito remoto. Mas tenho muita relação com isso, em primeiro lugar por ser judia e pelo judaísmo estar muito presente no que escrevo: a cultura, o passado, as dúvidas sobre fé, as histórias bíblicas (há muitas dela em “A verdadeira história do alfabeto” e em “Não está mais aqui quem falou”) e também pelo amor que eu tenho pela etimologia e a história pregressa das palavras, que remontam a um passado bem distante. Então acho que a ancestralidade aparece bastante no que produzo.


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